Doutor Sono (2019)

 

Filme: Doutor Sono
Data de lançamento: 31 de Outubro 2019 | ( 2h 32min ) | R
Realizador: Mike Flanagan
Elenco: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran 
Géneros: Fantasia, Drama, Terror
Produção: Warner Bros., Intrepid Pictures, Vertigo Entertainment  
Distribuição: NOS Audiovisuais
Sinopse: Ainda traumatizado pelos acontecimentos no Overlook quando era criança, Dan Torrance tem lutado para encontrar uma vida pacífica. Mas essa paz é quebrada quando encontra Abra, uma adolescente corajosa com um poder sobrenatural apelidado de “shine”. Quando reconhece instintivamente que Dan tem o mesmo poder, Abra procura-o, desesperada por ajuda contra a impiedosa Rose the Hat e os seus seguidores, The True Knot, que se alimentam dos poderes de inocentes em busca de imortalidade. Dan e Abra formam uma aliança improvável e envolvem-se numa batalha mortífera contra Rose. A inocência e coragem de Abra em aceitar os seus poderes obriga Dan a recorrer aos seus, levando-o a enfrentar os seus medos e a despertar os fantasmas do passado. […]

Crítica:

Doutor Sono, de Mike Flanagan e baseado no livro do mesmo nome, é o melhor filme de terror que 2019 nos ofereceu. Com o estilo distinto de Flanagan, esta sequela ao The Shining consegue unir o que Stephen King criou nas páginas do seu livro ao que Stanley Kubrick ilustrou no ecrã, satisfazendo até mesmo King, que, segundo o que se diz on-line, despreza a adaptação do livro que antecede Doutor Sono e que Kubrick realizou (já eu discordo de King, considero o filme The Shining uma verdadeira obra-prima, apesar de se distanciar bastante da obra literária). Com este filme, Flanagan realmente conseguiu realmente realizar o impossível, pois foi capaz de conjugar uma lealdade aos livros com uma fidelidade ao filme que Kubrick realizou, dado que o primeiro livro e o primeiro filme têm finais completamente distintos, em que personagem acabam em lugares completamente diferentes e situações extremamente contrárias.

O filme principia com um jovem Danny Torrance a tentar lidar com as suas habilidades especiais, e quando somos apresentados à versão adulta da personagem, encontramos Danny a usar alcoolismo como refúgio, como forma de escapar ao seu passado traumático. Após encontrar alguma estabilidade com um trabalho num hospício, onde ajuda pessoas no seu leito de morte usando as suas habilidades, Danny encontra o seu caminho entrelaçado a uma outra pessoa com as mesmas habilidades que as suas, a jovem Abra Stone. Contudo, quando um grupo de nómadas que se alimenta de pessoas com as mesmas habilidades que os nossos protagonistas, Danny e Abra vêm-se obrigados a lutar pela sobrevivência.

O filme é incrivelmente emocional, especialmente quando se foca nos traumas que Danny tenta ultrapassar todos os dias, tornando-o realmente numa personagem multidimensional, com várias camadas de sentimento, e investindo-nos completamente na sua narrativa. Esta caracterização incrivelmente real deve-se, na minha opinião, à habilidade de Flanagan de realmente entender o que King transparece nas suas obras. O realizador é perito em misturar o sobrenatural, o macabro e o perturbador com um forte núcleo emocional (tal como fez com a sua série “The Haunting of Hill House”), e consegue misturar o seu estilo tão particular com a visão inicial de Kubrick, homenageando-o em várias das cenas em que retorna ao cenário do filme original.

As representações são também elas incríveis, e Rebecca Ferguson em particular brilha, presenteando a audiência com uma interpretação medonha e ameaçadora como a antagonista. A sua presença é sentida mesmo quando não se encontra em cena, e Ferguson atribui ao papel uma qualidade cativante que a torna uma perfeita vilã. Ewan McGregor é também excelente no papel de Danny, atribuindo à complexidade emocional da personagem um elevado grau de realidade.

O filme acaba por também ele funcionar como um crescendo, um conjunto de ações cada vez mais intensa que levam a um final incrível que irá satisfazer tanto os fãs do livro original, como os fãs do filme de 1980. A recreação do temível Hotel é admirável,  todas as cenas que se passam no mesmo são incrivelmente perturbantes e bem realizadas. É notório o esforço de Flanagan para nos trazer uma incrível produção digna de todos os fãs de King e amantes de terror.

Não vou arguir, contudo, que o filme é perfeito, pois não o é, e tem certamente uma ou outra sequência mais absurda que requer uma maior suspensão da descrença (algo que vai mais ao encontro do livro original do que propriamente da visão de Kubrick). O filme é também incrivelmente perturbador e violento, e ilustra homicídio infantil em nítido detalhe, algo não recomendado para os membros mais sensíveis da audiência.

No seu todo, contudo, esta é uma incrível sequela ao The Shining, um filme que mais uma vez vem comprovar o conteúdo de valor que Flanagan está disposto a trazer ao mundo do terror, um filme completo de integridade artística, com uma forte paixão pelo material base no seu núcleo. É certo que este filme irá satisfazer todos aqueles que procuram não só um bom filme de terror, mas um bom filme em geral.

< Voltar

Nota: